11 novembro, 2010

Eu não sei quem te perdeu




















Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais".

E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.

E partiu,

Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.



Pedro Abrunhosa

14 outubro, 2010

Eu sei...



















Se eu voar sem saber onde vou
Se eu andar sem conhecer quem sou
Se eu falar e a voz soar com a manhã
Eu sei...

Se eu beber dessa luz que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser que já não quero estar aqui
Só Deus sabe o que virá, só Deus sabe o que será
Não há outro que conhece tudo o que acontece em mim

Se a tristeza é mais profunda que a dor
Se este dia já não tem sabor
E no pensar que tudo isto eu já pensei
Eu sei...

Se eu beber dessa luz que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser que já não quero estar aqui
Na incerteza de saber o que fazer o que querer
Mesmo sem nunca pensar que um dia o vá expressar
Não há outro que conhece tudo o que acontece em mim


Sara Tavares

18 setembro, 2010



















Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,

a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva

que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos

que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma

em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


Rosa Lobato Faria

03 setembro, 2010

De um Amor Morto













De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"

28 agosto, 2010

Intimidade














No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.


José Saramago

16 agosto, 2010

A Saudade que Dói...












Trancar o dedo numa porta, dói...
Bater com o queixo no chão... dói...
Torcer o tornozelo... dói...
Um tapa... um soco... um pontapé... doem...
Dói bater a cabeça na quina da mesa.
Dói morder a língua...
Dói cólica... cárie e pedra no rim...

Mas o que mais dói é a Saudade!

Saudade de um irmão que mora longe...
Saudade de uma cachoeira da infância...
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais...
Saudade do pai que morreu...
Do amigo imaginário que nunca existiu...
Saudade de uma cidade...
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa...

Doem essas saudades todas!

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama...

Saudade da pele...
Do cheiro... Dos beijos...
Saudade da presença e
até da ausência consentida.

Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem,
mas sabiam-se lá.

Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade,
mas sabiam-se onde.

Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo,
mas sabiam-se amanhã.

Contudo, quando o amor de um acaba ou torna-se menor,
ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é basicamente não saber...

Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio...
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia...
Não saber se ela ainda usa aquela saia...
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu...
Não saber se ele tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupado...
Se ele tem assistido às aulas de inglês...
Se aprendeu a entrar na internet e a encontrar a página do Diário Oficial...
Se ela aprendeu a estacionar entre dois carros...
Se ele continua preferindo Malzebior...
Se ela continua preferindo suco...
Se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor...
Se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados...
Se ele continua cantando tão bem...
Se ela continua detestando o Mc Donald's...
Se ele continua amando...
Se ela continua a chorar até nas comédias...

Saudade é não saber mesmo!

Não saber o que fazer com os dias que ficaram compridos...
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento...
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música...
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche...

Saudade é não querer saber
Se ela está com Outro...
E ao mesmo tempo querer...

É não saber se ele está feliz
E ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...

É não querer saber se ele está mais magro...
Se ela está mais bela...

Saudade
É nunca mais saber de quem se ama
E ainda assim doer!

Saudade...
É isso que senti enquanto estive escrevendo
E o que você provavelmente está sentindo
agora que acabou de ler...


Miguel Falabella

09 agosto, 2010

Ausência...

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua.

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

01 agosto, 2010

Bem devagar...










Sem correr
Bem devagar
A felicidade voltou p'ra mim
Sem perceber
Sem suspeitar
O meu coração deixou você surgir
E como o despertar depois de um sonho mau
Eu vi o amor sorrindo em seu olhar
E a beleza da ternura de sentir você
Chegou sem correr
Bem devagar

Amor velho que se perde
Sai correndo para outro ninho
Amor novo que se ganha
Vem sem pressa, vem mansinho
Caetano Veloso

20 junho, 2010

José Saramago - sobre "As Intermitências da Morte"


Sim, a morte do outro é lógica e natural e necessária. A nossa própria morte é uma injustiça tremenda, uma partida que nos pregam. É como se eu, por não me sentir velho, não o fosse, e pensar que nada do que vem de negativo com a velhice me pudesse tocar. É uma estupidez minha, porque chegará o momento em que tudo isso me tocará.

25 maio, 2010

Apesar das ruínas e da morte


Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A força dos meus sonhos é tão forte,

Que de tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen

02 fevereiro, 2010

"O Dia em que te esqueci..."


E tu foste muito importante, porque te amei sem restrições nem limites, aceitando-te com todos os teus defeitos, perdoando os teus reveses mais vezes do que seria recomendável, encolhendo os ombros às tuas hesitações, esperando sempre que um dia deixasses de ter medo de ser feliz e arriscasses uma mudança na tua vida. Para isso seria preciso que o desejasses, que considerasses que tal mudança te faria mais feliz, te poderia trazer algo que te faz falta, e disso, meu querido, não tenho a certeza.
É preciso encontrar lugar para o amor na nossa vida, é preciso dar-lhe espaço e tempo, é preciso ser humilde e corajoso, não ter medo de investir, e arriscar, mesmo sem nunca saber o que o futuro nos reserva. A proximidade com a morte libertou-me de muitos medos: já não tenho medo de morrer, nem que os meus planos falhem.

Margarida Rebelo Pinto

19 janeiro, 2010

Depoimento



Não há céu que me queira depois disto,

Nem deus capaz de ouvir-me.

Um homem firme

É firme até no céu,

E até diante

Do Criador!

É o que eu diria se, ressuscitado,

Fosse chamado

A depor!
Miguel Torga

05 setembro, 2009

Fallaste, corazón...




















Y tú, que te creías
el rey de todo el mundo;
y tú, que nunca fuiste
capaz de perdonar,
y cruel y despiadado
de todo te reías,
hoy imploras cariño,
aunque sea por piedad.

¿A dónde está tu orgullo,
a dónde está el coraje?
¿Por qué hoy, que estás vencido,
mendigas caridad?
Ya ves que no es lo mismo
amar que ser amado.
Hoy, que estás acabado,
¡qué lástima me das!

¡Maldito corazón!
Me alegro que ahora sufras,
que llores y te humilles
ante este gran amor.

La vida es la ruleta
en que apostamos todos
y a ti te había tocado
nomás la de ganar.
Pero hoy tu buena suerte
la espalda te ha volteado.
¡Fallaste, corazón!
No vuelvas a apostar.

Ángel Parra

06 junho, 2009

Fado Errado


Errei porque te amei a vida inteira
Sem nunca deste amor fazer alarde
Agora ando para aqui numa canseira
Pois não encontro a maneira
E para te deixar é tarde...

Se alguém me perguntar qual foi o erro
Direi que foi amar-te até mais não
Foi culpa deste amor a que me aferro
Com erro atrás de um erro
Há já erros sem perdão...

Assim que te escolhi, errei!
Por querer viver para ti, errei!
Calquei esta paixão
Esmaguei o coração
E se fiz bem ou não, não sei!

Segui o teu olhar, errei!
E quando quis voltarm errei!
Mas reparei depois
Que o erro era dos dois
E foi um erro a mais que eu encontrei

Foi erro aquele beijo prolongado
Que fez nascer em nós idéias loucas
Foi erro termos sempre a nosso lado
Um desejo acostumado
Ao calor das nossas bocas...

Foi erro aquelas juras que trocámos
Foi erro ainda maior não as quebrar
Depois de tantos erros que inventámos
Afinal ambos errámos
Pois só Deus não sabe errar...


Maria da Fé

27 setembro, 2008

A Idade de Ser Feliz



Existe somente uma idade para a gente ser feliz,

somente uma época na vida de casa pessoa

em que é possível sonhar e fazer planos

e ter energia bastante para realizá-los

a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para a gente se encantar com a vida

e viver apaixonadamente

e desfrutar tudo com toda a intensidade

sem medo nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida

à nossa própria imagem e semelhança

e vestir-se com todas as cores

e experimentar todos os sabores

e entregar-se a todos os amores

sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem

em que todo o desafio é mais um convite à luta

que a gente enfrenta com toda a disposição de tentar algo NOVO,

de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na vida da gente

chama-se PRESENTE

e tem a duração do instante que passa...

Mário Quintana

18 setembro, 2008

Cartas de Amor


Quanto a mim, o amor passou

Eu só te peço que não faças como gente vulgar

E não me voltes a cara quando passo por ti

Nem tenhas de mim uma recordação em que entre o rancor.

Fiquemos um perante o outro

Como dois conhecidos desde a infância

Que se amaram um pouco quando meninos,

E, embora na vida adulta sigam outras afeições,

Conservam, no caminho da alma,

A memória do seu amor antigo e inútil...


Fernando Pessoa

14 setembro, 2008

Avesso Bíblico - Mia Couto


No início
já havia tudo.
Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.
Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.
Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.
E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.
Estava criado o Homem.

14 junho, 2008

Tu e eu...






















Tu e eu
Andamos os dois aos segredos,
Só porque sim.
E enches a minha vida
Só porque respiras.
Mas que grande amor se explica?

O barco pára, largamos os remos
E damos as mãos um ao outro.
Fecho os olhos e como um retrato
O teu rosto aparece-me na alma.
Dizes que me amas,
Eu não digo nada.
Mas na tua voz ouve-se tão bem a minha.

Os remos caem na água
O barco faz o que a água quer.
Embalada nesta ondulação ténue
Eu descanso em ti.
E este momento contigo
Sem pressa nenhuma
É a minha maior felicidade.

Os remos já não estão perto,
O barco segue para não sei onde…
E eu sei que não quero mais ninguém
Comigo nesta viagem.


Sofia Vila Nova

02 junho, 2008


Devemos habituar-nos a isso: nas mais importantes encruzilhadas dos caminhos da nossa vida, não existe sinalização.


Ernest Hemingway

25 maio, 2008



















Minha garganta estranha quando não te vejo
Me vem um desejo doido de gritar
Minha garganta arranha a tinta e os azulejos
Do teu quarto, da cozinha, da sala de estar

Venho madrugada perturbar teu sono
Como um cão sem dono me ponho a ladrar
Atravesso o travesseiro, te reviro pelo avesso
Tua cabeça enlouqueço, faço ela rodar

Sei que não sou santa, às vezes vou na cara dura
Às vezes ajo com candura pra te conquistar
Mas não sou beata, me criei na rua
E não mudo minha postura só pra te agradar

Vim parar nessa cidade, por força da circunstância
Sou assim desde criança, me criei meio sem lar
Aprendi a me virar sozinha,
e se eu tô te dando linha é pra depois te abandonar


Música - Ana Carolina